Os jogos de RPG criam assassinos psicóticos e satanistas.

Posted: 18/05/2005 in Geral

O titulo do presente artigo é uma mentira, foi criado sem nenhum fundamento, porém não está tão distante do que poderíamos encontrar ao abrir o jornal pela manhã, levando-se em conta a verve sensacionalista da imprensa brasileira.

Surpreendeu-me no fim de semana a matéria jornalística veiculada por uma rede de televisão, onde dois jovens eram acusados de ter assassinado um casal e seu filho (uso aqui a palavra acusados, porque durante o inquérito policial ainda não existem culpados, porém, a veiculada matéria já os havia condenado como é de costume, desrespeitando todo e qualquer principio de direito esculpido em nossas leis) alegando ainda que o crime teria sido motivado pelo jogo de interpretação de papéis, ou RPG como é mais conhecido.

Esse argumento falacioso de se associar a pratica de um jogo a crimes bárbaros tem sido reiteradamente utilizado sempre que se apreendem, em poder do infrator, suplementos de regras de tais jogos, esse argumento é de tal pobreza, que poderíamos, seguindo pela mesma linha de raciocínio dizer que a Bíblia, livro presente em praticamente todas as celas no país, é responsável pelos crimes bárbaros e rebeliões perpetradas no interior dos presídios e cadeias públicas nacionais.

Sem fazer qualquer julgamento acerca do caso em questão, até mesmo por desconhecimento do conjunto probatório reunido até o presente momento, o argumento de que um crime brutal teria sido motivado única e exclusivamente como conseqüência do jogo (a repórter argumentava que o assassinato fora cometido como punição arbitrada durante a partida) obviamente não é verdadeiro e lança uma mancha indelével sobre todos aqueles que o utilizam como forma de lazer, que passam a ser olhados com desconfiança por pais, amigos e professores.

Vira e mexe somos surpreendidos por reportagens noticiosas que se mostram ansiosas em culpar algo ou alguém pela pratica de um crime, como à época em que um estudante, salvo engano em São Paulo, armado de uma submetralhadora desfechou disparos contra a platéia de uma sala de cinema, o culpado logo foi encontrado “Foram os jogos de computador” clamava a imprensa, fazendo uso uma vez mais de argumentos falaciosos e de provas circunstanciais, no caso o fato do estudante em questão ter em seu computador o jogo “Duke Nukem” onde um humano confronta, por alguns minutos somente, alienígenas dentro de um cinema.

Não nego que possa existir um elo qualquer entre o jogo de RPG e o crime praticado pelos rapazes, porém me insurjo contra a forma que essa matéria foi vinculada, que leva o telespectador incauto a acreditar que seu filho irá se tornar um assassino por jogar RPGs o que repito é uma mentira.

A imprensa sempre se apressa em pintar o RPGista como “pessoa estranha que se veste de preto e joga aquele jogo esquisito, sendo assim propensa a atos odiosos e repulsivos como matar a própria familia”, ignorando por completo a maioria absoluto de pessoas absolutamente normais que curte o jogo e leva uma vida comum como qualquer outra pessoa sem jamais ter de comparecer à uma delegacia ou ter seu nome impresso em periódicos de forma difamadora.

Além disso a imprensa de modo geral tem ignorando também os aspectos positivos dos jogos de RPG que possuem inesgotável potencial educativo e promove fatores como a socialização, o auxilio para superar a timidez o incentivo a leitura entre tantos outros.

Cumpre ressaltar que a tão alardeada liberdade de imprensa não é absoluta, deve essa atividade, como qualquer outra, se submeter a princípios éticos, morais e legais, o que não faz, respeitando estes somente quando lhe convêm.

Dois dos mais importantes e basilares princípios legais desrespeitados pela imprensa são o do chamado “devido processo legal” e da “ampla defesa” que em conjunto garantem a qualquer cidadão um julgamento justo, observadas todas as normas legais e oportunidades de defesa, para que só ao final seja o mesmo considerado culpado.

Ora, as matérias veiculadas na imprensa são sempre sensacionalistas, e o cunho das mesmas é “Fulano matou” e não “Fulano está sendo acusado pelo homicídio de…”.

Caso emblemático é o da escola Base, episódio em que os proprietários de uma escola foram acusados de promover orgias envolvendo os alunos da escola.

Impiedosamente atacados pela imprensa, essas pessoas tiveram seus bens depredados, foram a bancarrota as famílias ruíram e ao final concluiu-se pela inocência dos mesmos, inocência esta que não foi amplamente divulgada pela imprensa.

É sempre mais cômodo apontar fatores externos e imediatos como os jogos de RPG, os jogos de computador e os filmes para os surtos de violência do que escrutinar a chaga verdadeira por trás disso como por exemplo a falta de estrutura familiar.

Há que se ser critico no presente momento, para que não revivamos no presente, o terror da inquisição de outrora, que encontrava nas bruxas as causas das mazelas de seu tempo.

Quem será o próximo culpado? Quiçá o futebol? Sim afinal de contas os estádios sempre se tornam palco de conflitos campais absurdos entre torcidas, outras vezes entre jogadores, sendo estes conflitos sempre repletos de violência e por vezes acabam até mesmo culminando em mortes.

Pensando bem talvez não, o futebol é só um esporte, gera empregos e dividendos, merece a tutela e proteção do Estado (que acabou de instituir uma loteria para ajudar os clubes endividados) além de garantir audiência uma vez que é transmitido pela TV às quartas e domingos.

Sobrou para o RPG!

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