Gorgoloth’s Hounds.

 

Ele se movia determinada e silenciosamente em direção ao velho pórtico engastado na colina. As velhas hastes de metal do qual eram feitas o portão haviam há muito sido corroídas pela ação do tempo, esfacelando-se com a ferrugem e tornando-o sem serventia, motivo pelo qual o portão jazia agora semiaberto, testemunha silenciosa e impotente das idas e vindas da criatura que habitava os túneis mais além, dos quais um dia fora guardião.

 

Os túneis fantasmagóricos sob o velho forte eram evitados por todos, e mesmo aqueles a seu serviço evitavam transitar por ali, pois, ainda que não soubessem a exata natureza da criatura que vivia aqui, eles, os serviçais, sempre sentiram que os túneis eram o domínio de algo maligno, algo que predava tanto homens quanto outras criaturas da escuridão.

 

Qualquer outra pessoa provavelmente se perderia no labirinto de passagens que recortavam a colina sob a qual se assentava há séculos o velho forte de propriedade de sua família. Os aldeões da região especulavam que as passagens e túneis se estenderiam até as bordas de suas terras, enquanto outros atestavam de forma veemente que uma pessoa poderia ir de um lado ao outro das Colinas Uivantes sem jamais ver a luz do dia empregando os túneis. Ele sabia que as passagens não iam tão longe. Tendo caminhado ele mesmo incontáveis vezes por cada um dos túneis ao longo dos últimos séculos, ele conhecia cada centímetro de cada tune, afinal de contas Ele era o mestre aqui.

 

Ele encontrou a criatura que procurava após uma rápida caminhada através da completa escuridão que permeava os túneis, o fétido odor putrefato entregando a posição da criatura antes mesmo que o mestre pousasse seus olhos sobre ela. A espaçosa caverna com uma rasa piscina natural era um de seus locais favoritos, a “piscina da lua” como o povo simples da região outrora se referira à ela, já que uma abertura no teto da caverna permitia não só o acúmulo de água na parte mais baixa, como também permitia que a lua a iluminasse ao refletir-se na água em noites claras de lua cheia como a de hoje.

 

Não era nenhuma surpresa encontrá-lo aqui uma vez mais acocorado no chão enquanto dilacerava a garganta aberta de uma camponesa morta já há algum tempo. Tampouco a criatura estava sozinha, um grupo de seus companheiros preferidos, lobos zumbis, aguardava sentado a sua volta aguardando sua vez de atacar a carcaça em frangalhos da garota.

 

Os lobos viraram-se o encarando com órbitas vazias e emitindo um rosnado baixo assim que Ele adentrou a caverna, precisando de uma fração de segundo para reconhecê-lo e retroceder respeitosamente em direção às sombras. A criatura pelo qual Ele estivera procurando finalmente levantou sua cabeça farejando o ar e assim reconhecendo a presença de seu mestre; a luz da lua banhando suas feições bestiais enquanto ele sorveu o ar através de suas narinas mais algumas vezes antes de abocanhar com sofreguidão uma vez mais o pouco que restava do pescoço da garota. A cabeça presa por fiapos de tendão aos resquícios de corpo balouçava a cada nova mordida.

 

A criatura havia se despido de seus últimos traços de humanidade séculos atrás e a medida que se transformava, ou evoluía como diriam alguns estudiosos dos desmortos, suas características e sentidos haviam se tornado mais próximas daquelas dos animais e seus membros mais torneados e musculosos. Ela era hoje uma máquina assassina perfeita, e o que lhe faltava em inteligência ela possuía em malicia e astucia. “Sim”, pensou o mestre, o Strigoi será perfeito para a tarefa em questão.

 

“Gorgoloth…” Ele disse em uma voz autoritária enquanto se inclinava para a frente apoiado no bastão que sempre utilizava para caminhar. “… Venha, meu cão… tenho uma missão para você e para os seus… existe uma cidade em direção ao leste e preciso de algo que se encontra lá”.

 

A criatura emitiu uma espécie de ganido longo, como se choramingasse. Aparentemente entristecido com a partida ele depositou com surpreendente delicadeza o pouco que restava da camponesa no chão pedregoso da caverna, dando então alguns passos em direção ao mestre caminhando de quatro. Os lobos desmortos que haviam esperado até agora avançaram com pressa em direção à carcaça, mordiscando e investindo uns contra os outros enquanto corriam para ver quem seria o primeiro a alimentar-se dos restos. Gorgoloth virou-se de súbito para eles, encarando as criaturas e emitindo um chiado agudo por entre suas grandes presas, que fez com que os lobos parassem de imediato seu avanço e retornassem ganindo para as sombras uma vez mais.

 

“Siim… mestre” respondeu a criatura com seu rudimentar domínio da língua comum do império enquanto virava-se para acompanhar novamente seu amo.

 

“Vamos…” continuou a falar de forma paternal,”…  vou lhe enviar para o local conhecido como a cidade dos amaldiçoados. Também há alguém que irá acompanhá-lo… venha conhecê-lo” disse o mestre enquanto caminhava para fora da caverna em direção à escuridão dos túneis, o vampiro Strigoi seguindo logo atrás dele.

 

Ambos desapareceram em meio às sombras e o que restou da camponesa apodreceu em tempo ali mesmo onde havia sido depositado por Gorgoloth. Intocada.

 

 

+++

 

Salve Leitor!

 

Se você é um recém-chegado ao hobby dos jogos de estratégia (Wargames) pode ser que você nunca tenha ouvido falar de um jogo chamado “Mordheim”. Na época de seu lançamento ele era a resposta da Games Workshop para o jogador que apreciava combates em pequena escala (chamados de jogos “Skirmish” no inglês) ambientado no “Old World” do Warhammer Fantasy, assim como o jogo “Necromunda” era o jogo de combate em pequena escala de ficção cientifica ambientado no mesmo universo do Warhammer 40.000.

 

Enquanto o Necromunda colocava os jogadores no comando de gangues que brigavam pelo domínio das “Hive Cities” em que viviam o Mordheim por sua vez colocava os jogadores no papel de lideres de grupos de aventureiros (chamados de “Warbands” em inglês – grupos de guerra em uma tradução livre) que exploravam uma cidade em busca de riquezas.

 

A arte da caixa original de Mordheim.

 

O nome do jogo é o nome da própria cidade explorada pelos aventureiros sob o comando do jogador, Mordheim, um lugar tão conspurcado pelo mal e pelos excessos dos seus moradores que Sigmar decidiu retirá-la da face do velho mundo enviando dos céus um meteoro para destruí-la, ou pelo menos assim pensam alguns.

 

Não importando as razões que levaram à destruição da cidade, fúria divina ou mera causalidade, permanece o fato de que o meteoro que atingiu a cidade era composto em grande parte por “Wyrdstone”, um material cristalino raro e de propriedades mágicas, cujos fragmentos agora podem ser encontrados pelas ruínas de toda a cidade aguardando para serem colhidos pelas mãos daqueles bravos o suficiente, ou talvez estúpidos o bastante, para coletá-los.

 

Um mapa de Mordheim, também conhecida como a “Cidade dos Amaldiçoados”.

 

Soa como uma ambientação fantástica não é? Porém, a despeito do sucesso de ambos os jogos com o público a Games Workshop decidiu deixar os jogos Mordheim e Necromunda morrerem, primeiro ao deixar de publicar suplementos e regras oficiais para eles e depois descontinuando os modelos necessários para o jogo.

 

O que nos trás aos dias de hoje em que o Mordheim é um jogo oficialmente “morto”, contudo, ele continua sendo um grande jogo e nada impede que você o jogue como pude perceber em uma visita aos amigos do Clube Paulista de Wargames em São Paulo/SP no ano passado.

 

Eu já tenho alguns anos no hobby, motivo pelo qual já havia ouvido falar do Mordheim algumas vezes, mas, honestamente, nunca havia me interessado o bastante para adquirir o jogo ou mesmo experimentar uma partida. Acontece que os caras em São Paulo tem na sede do CPW uma mesa de Mordheim que só pode ser descrita com o uso de adjetivos tais como “FANTÁSTICA”, “INCRIVEL” e “MARAVILHOSA” (sim grafadas em maiúsculas mesmo), e assim durante minha visita acabei tendo a oportunidade de jogar com um grupo de Skaven (homens rato do universo do Warhammer Fantasy) contra os aventureiros nórdicos do meu grande brother Tocha.

 

A mesa de Mordheim do CPW.

 

Outra vista de mesa mostrando as docas.

 

Devo admitir que acabei sendo surpreendido e inequivocamente fisgado pelo Mordheim que mostrou-se um jogo ágil e divertido durante a partida mas que ao final desta possuía um “componente extra”, um momento em que juntos rolávamos dados para efetivamente descobrir os resultados dos esforços de nosso aventureiros descobrindo quais tesouros haviam sido encontrados, quantos fragmentos de Wyrdstone eles haviam obtido e por fim ficávamos sabendo ainda quais seriam as consequências dos ferimentos por eles experimentados ao longo da partida. Tudo isso tinha um componente tão semelhante aos jogos de RPG que era mesmo inevitável eu ter me encantado com esse jogo.

 

Ao retornar pra casa conversei um pouco com o Marcos (do blog CPT&P e meu co-host no “Papo de Mesa Podcast”) e ele veio com a idéia de outro de nossos costumeiros “desafios” onde nos aliamos para explorar alguma faceta de nosso hobby comum. Desta vez a idéia era que cada um de nós criaria um grupo de aventureiros e quando nos encontrássemos dali a alguns meses, mais especificamente em novembro de 2013 por ocasião de sua visita ao Brasil e da 1ª PAPOCON (sobre a qual escrevi aqui outro dia), poderíamos nos enfrentar na mesa de Mordheim do CPW.

 

Fiquei muito feliz com a idéia e aceitei o desafio, logo decidindo fazer um grupo de aventureiros representando as forças a serviço de um poderoso vampiro, assim nasceram os “Gorgoloth’s Hounds” (Cães de Gorgoloth em uma tradução livre).

 

Se você leu a estória que abre este artigo vai perceber que eu decidi usar um vampiro da linhagem Strigoi, vampiros mais animalescos na ambientação do Warhammer Fantasy, e embora não existam regras especificas desses vampiros para o Mordheim acabei mantendo a decisão por causa dos modelos e da estória que criei, e vou usar o bom e velho “count as” (“conta como” – quando você usa algo para representar outra coisa, por exemplo no meu vampiro suas garras “contarão como” espadas para fins de jogo) para empregar o Strigoi Gorgoloth e as criaturas normalmente associadas a esses vampiros como Lobos Zumbis e Ghouls (vampiros Strigoi são conhecidos como “Ghoul Kings”), assim como usarei um necromante e alguns zumbis para aumentar os números de meu grupo de aventureiros. Ao menos esse era o plano.

 

Os Ghouls passeiam procurando vítimas – consegui pintar todos os 4 ghouls da minha lista a tempo, mas desde então eles receberam alguns retoques.

 

Os desmortos vagam uma vez mais por Mordheim – ao fundo uma rápida visão desfocada do vampiro Strigoi Gorgoloth (ainda bem porque ele foi para a PAPOCON com a pintura pela metade).

 

Como já apontei em meu artigo sobre a primeira PAPOCON, eu falhei miseravelmente em levar meu grupo de aventureiros completamente pintado (kudos aqui para o Marcos que apareceu com um grupo de aventureiros de Tomb Kings brilhantemente pintados), porém eu pretendo terminar a pintura do meu warband, e gostaria de compartilhar os resultados com vocês leitores aqui do blog.

 

Os Tomb Kings brilhantemente pintados pelo Marcos.

 

Pra isso vou tentar realizar uma crônica do processo de criação do meu grupo de aventureiros em uma série de artigos que batizei de “Road to Mordheim” que espero que sejam interessantes para outros hobbyistas que estejam pensando em aventura-se pelas ruas de Mordheim. Uma-se a mim e vamos descobrir o caminho para a cidade dos amaldiçoados.

 

Mais em breve! Grande abraço e até logo.

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